PORTAL DEMOCRACIA
Manchete Pandemia Política

Patologista nega medalha de Bolsonaro: “Receber seria mais demérito que reconhecimento”

patologista-nega-medalha-de-Bolsonaro

Em entrevista à TV Democracia nesta segunda-feira (08), o médico patologista Paulo Saldiva explica que recusou ser homenageado com a Ordem Nacional do Mérito Científico, em solidariedade a dois pesquisadores que o Governo Bolsonaro retirou da lista de condecorados por “critérios políticos”.

“Isso se configurou para nós uma interferência inaceitável no processo de Ciência do Brasil. Receber uma homenagem com essa característica ia prejudicar demais e consolidar um estado de coisas que só ocorrem em países ditatoriais. A gente ouviu  falar disso de exclusão de cientistas em regimes totalmente autoritários. Ou (estes países) são ditatoriais ou flertam com a ameaça à Democracia”, afirma Saldiva.

A medalha de Ordem de Mérito Científico foi criada em 1993 para “condecorar personalidades nacionais e estrangeiras que se distinguiram por suas relevantes contribuições prestadas à Ciência, à Tecnologia e à Inovação”.

A condecoração a diversos cientistas chegou a ser anunciada com publicação no Diário Oficial da União em 3 de novembro, mas o Governo Bolsonaro resolveu excluir da homenagem os pesquisadores Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda e Adele Schwartz Benkazen.

Guimarães de Lacerda é pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e coordenou um estudo no Amazonas que concluiu como a cloroquina defendida por Jair Bolsonaro (sem partido) é ineficaz no tratamento da covid-19 e gera efeitos colaterais de arritmia. Ele chegou a ser ameaçado por conta de suas revelações sobre o remédio – usado tradicionalmente nos tratamentos de malária e lúpus.

Adele Benzaken, a sua vez, é diretora da Fiocruz e a comanndou a área de enfrentamento ao HIV/Aids no Ministério da Saúde durante os governos Dilma Rousseff e Michel Temer. Ela foi exonerada do Governo Federal na gestão de Bolsonaro após publicar uma cartilha voltada à pessoas transgênero.

Pesquisadores recusaram a medalha

Saldiva é signatário da carta em que 21 pesquisadores que negam a homenagem por conta da “exclusão arbitrária” de ambos os cientistas.

“Saiu essa relação, eu nem sabia que tinha recebido. Soube já diante da repercussão do segundo ato que me fez desistir. Excluíram a priori, menos de 48h depois da publicação dos nossos nomes no Diário Oficial, dois pesquisadores por critérios políticos. Então ficou muito claro que a gente não podia receber essa homenagem porque ou recebe todo mundo por seu mérito ou ninguém recebe”, argumenta Saldiva.

Pelo regulamento da medalha da Ordem do Mérito Científico, líderes do Governo Federal são obrigatoriamente homenageados com a medalha. São condecorados, com isto, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, o ministro das Relações Exteriores, Carlos França, o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o ministro da Edicação, Milton Ribeiro.

Saldiva afirma que o grupo chegou a ficar dividido porque “quem deu o prêmio no fundo foi a sociedade cientista”. Mas ressalta que o grupo optou por negar a homenagem em “ação coletiva”, entendendo que a exclusão dos pesquisadores configura uma atitude parecida com a censura a jornais no período da Ditadura.

“Não foram todos que negaram, mas a grande maioria negou a homenagem e isso representa um gesto de que tem um limite, pelo menos da nossa parte, em relação a absurdos. Se você deixar, é o fim, né? Você começa aceitando esses pequenos desvios, que chegam no limite do que é razoável, e acaba comprometendo toda a credibilidade das instituições, do que você faz e acredita. Você passa a não acreditar em você mesmo. Como vou chegar nos nossos alunos e ensinar Medicina, se eu transgredi com um princípio básico, que violenta uma norma fundamental da civilização?”, questiona.

O patologista conclui dizendo que receber a medalha “seria mais demérito que reconhecimento”.

“Então  achei que foi uma decisão muito fácil para todos nós. De um lado você fica triste porque é maior homenagem que você pode receber das entidades científicas de seu país. Mas, por outro lado, aceitá-la, hoje, seria para nós mais um demérito que um reconhecimento de mérito”.

Related posts

“Esse pode morrer”, diz Adrilles na Jovem Pan sobre Felipe Neto

Rafael Bruza

Diretor da PF comprou apartamento de luxo em Miami e quitou em um ano

Rafaele Oliveira

Vacinação em crianças de 5 a 11 anos começa neste mês, sem prescrição

Rafaele Oliveira

Leave a Comment