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Nem tudo é apenas crueldade. Em Bolsonaro, a perversidade é método

Mein Kumpf moreno: o horror como tática

Pouco afeito ao trabalho, Bolsonaro tem demonstrado disposição inaudita em assombrar os brasileiros com sua índole desumana e perversa. Ele não perde uma oportunidade de se regozijar em tirar das pessoas todo conforto existencial com demonstrações de crueldade e sadismo.

As passagens mais monstruosas foram certamente as imitações de pessoas se afogando sem ar durante a pandemia. Várias vezes ele apertou o próprio pescoço e forçou a respiração, construindo esquetes tétricos enquanto a COVID consumia centenas de milhares de vidas.

Na semana passada, seu ‘persona’ sádico foi buscar na AIDS, síndrome ainda objeto de estigmas homofóbicos, insumos para tirar a tranquilidade dos que, contrariando sua incessante campanha contra a vacina, já tomaram as duas doses.

Ao afirmar que os completamente vacinados estavam pegando AIDS na Inglaterra, ele não mirava propriamente os portadores da AIDS — mirava os vacinados, metade da população do País.

Obviamente a estratégia de ataque à tranquilidade geral da Nação não se dá apenas por força da sociopatia que, segundo o psiquiatra José  Elias Aiex Neto, é notória no caso de Jair Bolsonaro. A escolha dos temas segue também um método de manipulação da agenda pública por meio de ferramentas da psicologia social e da comunicação.

O que se apresenta como  manifestações de crueldade pura na verdade é um método testado e, podemos afirmar, bem-sucedido em seu propósito de desvirtuar o debate das causas realmente importantes para a sociedade.

O método bolsonarista é claramente inspirado nas técnicas de propaganda que ajudaram Adolf Hitler a assombrar a Alemanha para construir o III Reich — e enfiaram o mundo na Segunda Grande Guerra. Quem menospreza a influência desse tipo de estratégia nas ações de Bolsonaro termina por não entender que forças verdadeiramente atuam sobre o perverso comportamento presidencial.

No universo neonazista, qualquer ato que possa gerar caos e confusão é bem-vindo ao arsenal tático da luta pelo Poder. As notícias falsas são o ferramental básico e o horror tem sido seu principal insumo. Tudo o que aterroriza o cidadão é utilizado como propaganda do fascismo.

No primeiro volume de Mein Kumpf (Minha Vida, 1925), Hitler e Rudolph Hess, que o editou, tratam até mesmo as cartas das esposas de soldados em combate na Primeira Guerra Mundial como elementos de propaganda determinantes do fracasso da insidiosa campanha militar alemã no começo do século passado.

Desprovida de sentido estético e até moral, a propaganda, na visão do inspirador de Bolsonaro, “é um meio e, como tal, deve ser julgada do ponto-de-vista de sua finalidade. A forma a tomar deve consentir no meio mais prático de chegar ao fim que se colima”. Ou seja: o que importa é que produza os efeitos que dela se esperam.

A tosquidão, a pobreza vernacular, o linguajar chulo e direto se explicam pela maneira como os nazistas, os nossos entre eles, entendem a cognição da ‘plebe ignara’, pois “a propaganda sempre terá que ser dirigida à massa”, como prescreve o pai do nazismo.

A massa, para o ditador alemão, é quase irracional, e por isto incapaz de entender elaborações mentais complexas. “A capacidade de compressão do povo é muito limitada mas, em compensação, sua capacidade de esquecer e grande. A  propaganda deve-se restringir a poucos pontos e estes deverão ser valorizados como estribilhos”, ensina Adolf Hitler.

Ou seja: o ‘povo’ precisa de síntese e repetição para introjetar os elementos que a propaganda pretende disseminar e inculcar. Assim, “a arte da propaganda encontra, por forma psicologicamente certa, o caminho para o coração do povo”, ensina ditador que provocou 60 milhões de mortes para consumar seu sonho de construir um império racial.

As lições para entender o bolsonarismo ecoam de um século atrás. A inspiração é clara e o caráter farsesco das reproduções metodológicas quase exatas não deixa dúvida sobre a fonte na qual essa falange vem se  inspirando.

O propósito está dado desde o princípio: destruir a democracia valendo-se de seus próprios instrumentos de proteção. Para esse fim, nada mais eficiente do que doses diárias de confusão e terror simbólico.

Ao confundir a cabeça das pessoas, Bolsonaro mina também a confiança na Justiça, na Imprensa e na própria política. O sacrifício da felicidade geral traz proveito ao projeto de tirania em gestação no Brasil.

Não é portanto, apenas o sadismo a força motriz por trás dos anátemas, vitupérios, das mentiras e declarações aparentemente disparatadas e cruéis do comandante do Reino brasileiro. Ele está lá sim, e é evidente. Traz lucro político e regozijo pessoal, mas está longe de ser a única causa das mais sórdidas manifestações presidenciais.

Para o bolsonarismo, como de resto para todo o universo que bebe na fonte do fascismo moreno, brutalidade e crueldade não são apenas deformações do caráter. São método.

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