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Ladislau Dowbor sobre endividamento no Brasil: “É preciso educar os banqueiros”

endividamento no Brasil

Em entrevista exclusiva a alunas do curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o professor e economista Ladislau Dowbor analisou o cenário político-social brasileiro. Sobre o atual endividamento em massa no País, Dowbor é direto: “a gente tem que educar os banqueiros, não a população.”

Ladislau Dowbor é autor e coautor de mais de 40 livros, dentre eles, os famosos A era do capital improdutivo: a nova arquitetura do poder, dominação financeira, sequestro da democracia e destruição do planeta e O capitalismo se descola: novas arquiteturas sociais. Formado na Suíça com mestrado e doutorado na Polônia, atualmente Dowbor é professor titular da pós-graduação da PUC-SP, além de consultor das Nações Unidas e conselheiro de diversos institutos.

Endividamento no Brasil bateu recorde em outubro deste ano, atingindo 76% das famílias

Segundo dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o número de brasileiros endividados cresceu pelo 11º mês seguido, chegando a 74,6% das famílias. A solução geralmente proposta é investir na educação financeira da população. Para o economista Ladislau Dowbor, o caminho não é esse.

“A gente tem que educar os banqueiros, não a população. O governo está propondo que até mil reais as pessoas vão poder pegar um empréstimo na Caixa, pagando 4% ao mês. A população não consegue calcular o quanto isso significa em taxas de juros, porque essa taxa é a/a (ao ano). Apresentar a/m (ao mês) é fraude. No mundo inteiro as taxas de juros são calculadas ao ano. E 4% ao mês é 60% ao ano”, explicou o economista.

Conforme Dowbor, a prática de juros cobrada pelos bancos brasileiros pode ser considerada agiotagem. O economista afirma que a Constituição Federal de 88 declara que o objetivo do sistema financeiro nacional é “promover o desenvolvimento equilibrado do País e servir aos interesses da coletividade”, o que não acontece na prática. “O dinheiro nos bancos não é dos bancos, é nosso”, diz o professor.

Ladislau Dowbor destaca ainda a retirada do artigo 192 da Constituição, que dizia que as taxas de juros não poderiam ser superiores a doze por cento ao ano, sendo considerado crime de usura e recebendo punição, caso esse limite fosse ultrapassado. “A lei não determinou nada, os bancos se juntaram e tiraram esse artigo”, revela.

“Sabe o que isso significa? Que no Brasil esses grupos [os banqueiros] podem fazer agiotagem e é legal. Podem fazer de tudo, mandar dinheiro para paraíso fiscal, fazer o diabo! Quando me dizem que não é ilegal colocar dinheiro em paraíso fiscal, eu penso em quem fez a lei. Legítimo não é. Porque o Ministro da Economia coloca o seu dinheiro lá fora, inventando um nome fictício, Dreadnoughts, para esconder dinheiro ali. Ele não é ilegal, não é fora da lei no sentido de banditismo, mas é fora da lei porque a lei não tem acesso a essa informação.

ladislau dowbor
Economista e professor titular de pós-graduação da PUC-SP, Ladislau Dowbor. | Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Ladislau Dowbor: “Na minha convicção, legalmente Bolsonaro foi eleito. Em termos de legitimidade, não.”

Explicando a diferença, em sua opinião, de legalidade e legitimidade, Dowbor cita o exemplo das eleições presidenciais de 2018, quando Jair Bolsonaro (PL)  foi o candidato eleito.

Na minha convicção, por exemplo, legalmente o Bolsonaro foi eleito. Em termos de legitimidade, não. Porque na contagem de votos, ele foi eleito. Mas o Lula foi preso e por isso não levou a eleição, a Dilma foi tirada. Ou seja, montaram todo um sistema para o Bolsonaro ter mais votos relativamente a um candidato que o Lula indicou de última hora. Um grande homem, Fernando Haddad tem toda a minha admiração. Mas essa eleição, para mim, não foi legítima”, declarou.

De acordo com o economista, a distinção entre o que é legal e o que é legítimo acaba sendo “escorregadia”, porque são os grandes grupos que fazem as leis. “Por que agora está mais legal desmatar a Amazônia? Porque estão liquidando as leis ambientais. Por que agora é legal o que era considerado crime e agiotagem na Constituição? Porque tiraram a lei! É a tomada de poder pelos grupos financeiros”, conclui.

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