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Governo Bolsonaro já censurou questões do próximo Enem

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O Governo de Jair Bolsonaro tenta controlar o conteúdo do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) através da impressão de provas – para permitir que mais pessoas tenham acesso ao exame antes da aplicação – e da pressão sobre servidores do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).

Reportagem do jornal Estado de SP apurou que a gestão federal já suprimiu “questões sensíveis” na prova que será realizada pelos estudantes nos dias 21 e 28 de novembro. Alguns dos 37 servidores do Inep que pediram exoneração do órgão na semana passada também falam em pressão pela troca de questões e criticam a “fragilidade técnica” da cúpula do Inep.

A prática de imprimir provas para que elas sejam analisadas por pessoas externas ao Inep nunca foi realizada em anos anteriores. O processo de criação do Enem é feito em um espaço chamado “ambiente seguro”, por professores contratados.

“Eles têm níveis de segurança. Você tem que passar por um daqueles scanners de corpo. Qualquer objeto de metal que estiver com você vai ser detectado. E você não pode entrar com ele. As portas são altamente seguras. A montagem da prova, você faz em um nível de segurança, todo cercado de câmeras. Não tem nenhum ponto cego dentro desse ambiente”, detalha um servidor ao Fantástico da Rede Globo.

Mas há relatos de que um policial federal não identificado e o falecido general da reserva, Carlos Roberto Pinto de Souza, tiveram acesso ao ambiente seguro.

“O Inep precisa explicar como essa pessoa (policial federal) foi parar lá dentro, quem autorizou a entrada, o que ele fez, que nível de controle a gente tem das informações que ele acessou lá”, afirma um servidores.

O diretor de Avaliação da Educação Básica do Inep, Anderson Oliveira, analisou uma primeira versão do Enem de 2021. Segundo relatos à reportagem do Estadão, 24 questões foram retiradas da prova após uma “leitura crítica” onde algumas questões foram consideradas “sensíveis”.

As comissões responsáveis pela montagem do exame sugeriram outras perguntas para substituir as contestadas por Oliveira. Mas, com as alterações, o Enem acabou descalibrado, considerando que a prova tem quantidade pré-determinada de perguntas consideradas fáceis, médias e difíceis.

Das 24 questões que chegaram a ser retiradas, 13 foram reinseridas em uma versão final.

Em entrevista ao Fantástico publicada no último domingo (14), servidores chamam o diretor de Avaliação da Educação Básica do Inep, Anderson Oliveira, de despreparado e confirmam o pedido por exclusão de questões.

“Esse dirigente (Anderson Oliveira), designado pelo presidente do Inep, Danilo Dupas, foi até o ambiente seguro, fez a leitura das questões que essa equipe técnica havia montado, essa primeira prova do Enem, e solicitou a exclusão de mais de duas dezenas de questões dessa primeira versão da prova”, conta um servidor.

Segundo ele, as perguntas cortadas tratavam de conhecimentos do contexto sociopolítico e socioeconômico do Brasil.

“Eram questões que tratavam principalmente da história recente do país, dos últimos 50 anos. Sob o ponto de vista da equipe técnica, não havia qualquer reparo pedagógico a ser feito na primeira versão da prova”, afirma um servidor.

Anderson Oliveira não quis dar entrevista à nenhum veículo de imprensa nos últimos dias sobre as acusações.

Ao Fantástico, servidores e ex-servidores do Inep relatam que existe uma “pressão insuportável” em relação ao Enem.

“O corpo técnico e pedagógico se vê obrigado a refazer a prova duas vezes”, comenta um outro funcionário. Um terceiro servidor afirma que “isso é um assédio moral”.

Ao Estadão, servidores relatam que o presidente do Inep, Danilo Dupas, deixou claro que o Enem de 2021 não poderia ter perguntas consideradas inadequadas pelo Governo.

Eles também relatam que o clima de pressão atual já gerou casos de autocensura nos grupos que escolhem as questões.

Procurado pelo Estadão na terça-feira (16), o Inep não se manifestou sobre as acusações.

Na segunda-feira (15), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou que o Enem começa agora a “ter a cara” do governo. Declarou também que “ninguém precisa estar preocupado com aquelas questões absurdas do passado”.

Na contramão de Bolsonaro, um dia depois, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, negou interferências do Governo no Enem.

“O presidente fez menção simplesmente a algo que é ideia dele. Ele tem liberdade para isso. O Enem está baseado em um banco de dados que foi construído há muito tempo. As questões não estão variando. O governo não mexeu em nenhuma questão do Enem. Questões são feitas de acordo com a metodologia do Inep”, afirmou Mourão a jornalistas na chegada ao Palácio do Planalto.

Interferência ideológica no Enem: uma intenção antiga do Governo Bolsonaro

Bolsonaro mostra intenção de alterar questões do Enem desde foi eleito para a Presidência da República, em 2018, quando ele criticou uma pergunta que mencionava um dialeto de gays e travestis.

“Temos que fazer com que o Enem cobre conhecimentos úteis”, afirmou Bolsonaro ao jornalista José Luís Datena, em uma de suas primeiras entrevistas como presidente eleito.

Na época, a presidente do Inep era Maria Inês Fini, que criou o exame durante governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e voltou ao órgão durante a gestão de Michel Temer (MDB).

“Essa coisa de considerar questões sensíveis nunca existiu”, afirma a ex-diretora do Inep. “Hoje, quem está lendo não entende nada de avaliação.”

O Estadão consultou outros ex-presidentes do Inep e todos foram unânimes ao dizer que nunca analisaram a prova previamente.

Em 2019, primeiro ano de Governo Bolsonaro, o Ministério da Educação chegou a criar uma comissão para avaliar a pertinência do Banco Nacional de Itens do Enem com a “realidade social” do Brasil.

O ministro da Educação da época, o olavista Abraham Weintraub, disse em entrevista na época que as questões do Enem não viriam carregadas “com tintas ideológicas” no Governo Bolsonaro.

Em efeito, a comissão chegou a desaconselhar a aplicação de 66 perguntas por considerar que elas promoviam “polêmica desnecessária” e “leitura direcionada da história” ou feriam um “sentimento religioso”.

Em 2021, houve nova tentativa de criar a comissão para avaliação de questões. Mas o caso foi levado ao Ministério Público Federal (MPF) que recomendou em outubro que o Inep desistisse da comissão.

O órgão informou que a recomendação foi atendida.

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