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Bolsonaro pediu censura ao termo ‘Golpe de 64’ no Enem; Inep tentou driblar regra de acesso ao exame

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No primeiro semestre, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pediu ao ministro da Educação, Milton Ribeiro, para que questões do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tratassem o Golpe de 1964 como uma revolução. A informação é do jornal Folha de SP.

O ministro da Educação chegou a citar o pedido do presidente a equipes do MEC e do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), mas não o levou adiante na prática, pois os itens passam por um longo processo de elaboração.

O presidente é defensor da Ditadura Militar, elogia torturadores assassinos impunes, como o coronel Ustra, e frequentemente critica o Enem por enxergar uma suposta abordagem de esquerda nas perguntas.

Desde 2019, primeiro ano do Governo Bolsonaro, nenhuma questão sobre Ditadura Militar caiu no Enem – algo inédito desde que o exame passou a ser aplicado.

Procurados pela Folha de SP, MEC, Inep e Palácio do Planalto não responderam.

O Governo Bolsonaro passa por uma crise envolvendo a demissão de 37 servidores do Inep e denúncias de interferências no conteúdo das questões do Enem. Onze perguntas do Enem 2021 já foram censuradas da edição de 2021 da prova por serem consideradas “questões sensíveis”.

Servidores denunciam um ambiente de pressão e assédio moral no Inep. Também apontam que houve impressão prévia de provas – para que pessoas externas ao órgão tivessem maior acesso ao exame antes de sua aplicação.

Eles também relatam que o clima de pressão atual já gerou casos de autocensura nos grupos que escolhem as questões.

Inep tentou driblar regra e dar acesso ao Enem a professores de fora do edital

Além dos episódios de censura e do ambiente de pressão, a chefia do Ministério da Educação tentou incluir na montagem do Enem 2021 profissionais que não tinham sido aprovados em processo seletivo voltado a selecionar colaboradores da prova.

A lista, que foi obtida pelo Estadão, inclui uma professora de biologia criacionista e quatro professores ligados à Universidade Mackenzie, de onde se formou o ministro da Educação, Milton Ribeiro.

O Estadão apurou que a lista foi realizada pelo presidente do Inep, Danilo Dupas com concordância do MEC.

As pessoas incluídas na lista fora do processo seletivo supostamente receberiam permissão para entrar na sala segura do Enem – um ambiente reservado, protegito com detectores de metal e senha nas portas. Elas poderiam escolher as questões da prova a partir do banco de itens e acompanhar a impressão da prova na gráfica.

A lista dos professores foi descoberta por servidores do Inep em abril e gerou a demissão do coordenador da área, que discordava da medida.

Com a demissão, Dupas recuou e retirou os nomes da relação.

A montagem do Enem é feita por servidores do Inep e colaboradores externos – professores escolhidos através de um edital de seleção que considera o currículo e a formação acadêmica dos pretendentes.

O grupo de professores incluídos na lista não passou por esta seleção.

A lista que chegou à membros da diretoria da Avaliação da Educação Básica do Inep continha 15 nomes que incluíam professores já aprovados e servidores, além de 22 professores que não passaram pelo processo de seleção.

Eles faziam parte de um grupo que seria vacinado com prioridade pelo Governo, pois tinham saído do trabalho remoto para atuar juntos em salas fechadas e seguras.

O pedido de vacinação para nomes desconhecidos chamou atenção dos servidores, que então perceberam que a escolha daqueles professores foi realizada fora do processo de seleção.

Servidores do Inep relatam que boa parte da insatisfação que gerou os 37 pedidos de exoneração no órgão, na semana passada, começou com este episódio.

Procurado pelo Estadão, o Inep não se pronunciou sobre a denúncia.

Professores escolhidos fora do processo de seleção têm perfil bolsonarista

Segundo o Estadão, dois dos professores integrantes da lista são membros do grupo Docentes pela Liberdade (DPI), que se autointitula um “grupo apartidário” com objetivo de “romper com a hegemonia da esquerda e combater a perseguição ideológica”.

A primeira página do site do coletivo tem uma foto do presidente Jair Bolsonaro segurando uma camiseta do DPL. No Twitter, o grupo já compartilhou mensagens contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e falas do ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, que pediam a prisão do youtuber Felipe Neto –crítico do Governo Bolsonaro.

Aline Loretto Garcia, esposa do diretor do DPL, Marcelo Hermes Lima, aparece na lista de professores do Inep como especialista em História.

Procurada pelo Estadão, ela afirmou que “nunca elaborou” a prova do Enem e unca recebeu convocação para participar de atividades no Inep.

Secretário Executivo do DPL, Pedro Lucena também consta na lista como professor de Geografia.

“Eu não desempenhei tarefa nenhuma”, respondeu ao ser questionado pelo Estadão sobre a presença de seu nome na lista de professores que seriam escolhidos por fora do processo seletivo.

“Não participei, não cheguei a ir em nada. Realmente, alguém colocou meu nome, mas recusei porque tinha compromissos aqui (em São Paulo)”, disse ela, que destacou não ter participado de edital relacionado ao Enem.

A professora do Mackenzie, Vera Lucia Azevedo, que aparece na lista com especialista em matemática, afirmou ao Estadão que foi convidada por telefonema para uma reunião do Inep em Brasília, mas recusou o convite.

“Não participei, não cheguei a ir em nada. Realmente, alguém colocou meu nome, mas recusei porque tinha compromissos aqui (em São Paulo)”, disse ela ao Estadão, destacando que não participou de edital relacionado ao Enem.

Presente na lista como especialista em Biologia, Mayra Cordeiro confirmou que foi procurada pelo MEC, mas disse que não “está fazendo parte da equipe”.

“Com todo respeito, não importa o que você amigo evolucionista venha me dizer e nem qual argumento você venha me trazer, eu não vou mudar meu posicionamento, e isso não faz de mim menos bióloga que você. Sou criacionista e isto não está em discussão”, escreveu nas redes sociais a professora considerada especialista em Biologia pelo Governo Bolsonaro.

Questões do ENEM 2019 foram censuradas pelo governo Bolsonaro

Segundo reportagem postada nessa quinta-feira (18) pela revista piauí, em 2019, uma comissão especial, criada pelo governo Bolsonaro, fez um “pente fino” em questões que poderiam ser dadas no ENEM daquele ano e excluiu 66 delas.

Essa exclusão do banco de questões aconteceu sem nenhum aval da equipe técnica responsável do INEP, órgão que desenvolve a prova.

A piauí teve acesso ao documento onde esse comissão justifica as intervenções.

De acordo com a reportagem, boa parte das questões foram censuradas e excluídas pelo mesmo motivo: causariam “polêmica desnecessária”. Uma das questões que foi censurada para não causar “polêmica” continha uma tirinha da Mafalda, icônica personagem argentina criada por Quino.

Ela é figura cativa de vestibulares pois, como é muito questionadora, é ótima para questões que façam os estudantes refletirem sobre algum tema, mas a comissão achou polêmico demais.

Na tirinha em questão, Mafalda encontra sua mãe, que está ansiosa em ver sua filha entrando no jardim de infância. Para acalmar a mãe, ela diz: “Sabe, mamãe, eu quero ir para o jardim de infância e estudar bastante. Assim, mais tarde não vou ser uma mulher frustrada e medíocre como você!”. Chocada, a mãe de Mafalda não fiz nada, enquanto a filha sai andando dizendo: “É tão bom confortar a mãe da gente!“

No total, 28 perguntas foram censuradas. Algumas questões continham temas importantíssimos como gravidez na adolescência, feminismo, religião – todas elas censuradas para evitar polêmica. Além dessas, 6 foram censuradas por “descontextualização histórica do texto”, essas questões se referiam à ditadura militar.

Todas as perguntas que falavam sobre feminismo foram retiradas da prova.

Uma questão, retirada da prova de ciências biológicas, falava de HIV e métodos de prevenção. Ela afirmava que a camisinha era a maneira mais segura e barata para se previr contra a AIDS. Foi censurada. A alegação? Iria criar polêmica e estaria fazendo um direcionamento do controle de saúde.

No mesmo caderno de biológicas, uma questão que falava sobre a transmissão de um vírus no sistema prisional e como a superlotação e as más condições agravavam a proliferação. Censurada pois causaria polêmica por abordar o sistema penal.

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