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As mulheres de Alcolumbre, o peculatário

Capa de Veja

É acachapante a denúncia contra o Senador Davi Alcolumbre. Durante anos ele manteve, segundo a Revista Veja, um esquema de roubo do dinheiro público por intermédio do desvio do salário de assessores. O mundo da política tenta normalizar a prática, que apelidou de ‘rachadinha’, palavra que se popularizou quando os filhos do Presidente da República (e ele próprio) foram flagrados traficando dinheiro público com a contratação de funcionários fantasmas.

Pego com a boca na botija, Alcolumbre fez o que todo malandro faz: negou que tenha relação ou conhecimento do fato, ainda que os depoimentos, assumidos on the record, nem de longe admitam essa possibilidade. Alcolumbre teria contratado pessoalmente muitas de suas fantasmas — e exigiu delas segredo e lealdade.

A roubalheira não cessou nem mesmo quando eleassumiu a Presidência do Senado. Dia após dia, o peculatário do Amapá ia engordando criminosamente saldos bancários enquanto o País se indignava com as descobertas das mesmas práticas pela família Bolsonaro. Ele ele lá, quieto, calado.

Isso ajuda a explicar seu silêncio e sua falta de altivez nas horas mais críticas vividas pelas instituições brasileiras. Ele se esquivou de tomar posições e frustrou expectativas quase todas as vezes em que foi instado a opinar sobre a crise que ameaçava botar a democracia a perder.

Alcolubre e Flávio Bolsonaro: um rachador cheira outro
Alcolumbre, em Veja, passa pano para o colega peculatário Flávio Bolsonaro

Não deve mesmo ser fácil a vida de um rachador como Alcolumbre, que precisa conciliar secretas práticas criminosas com discursos grandiloquentes, construídos didaticamente para sustentar virtudes que o orador não tem.

Foi o que ocorreu em dezembro de 2020, quando ele se preparava para deixar a Presidência do Senado. Alcolumbre teve todas as oportunidades de investigar seu homólogo Flávio Bolsonaro, mas não o fez — matou no peito e deixou o jogo do paculato seguir incólume.

“Ele é uma pessoa muito boa”, disse o amapaense ao justificar a ausência de iniciativa para apurar os crimes atribuídos ao filho mais velho de Jair Messias Bolsonaro. E por ser uma pessoa “muito boa”, talvez até melhor do que o próprio Alcolumbre, Flávio seguiu intocado.

Por que Alcolumbre aliciou apenas mulheres pobres, frágeis e vulneráveis?

No esquema montado pelo ex-presidente do Senado, chama a atenção o fato de que todos os seus fantasmas são mulheres pobres e em situação de vulnerabilidade social.

As seis fantasmas localizadas pela revista contam histórias muito semelhantes. Nenhum delas tem qualificação para as funções que supostamente exerceriam; todas tiveram que prestar juramento de silêncio; e beiravam o estado de necessidade quando foram aliciadas para o esquema.

Quem tivesse filhos pequenos ficava em vantagem, pois o Senado paga um auxílio-pré-escolar que aumentava os ganhos do peculatário do Amapá. E a todas, a roubalheira foi apresentada como um programa de ajuda mútua (você me ajuda, eu te ajudo) que desviava 90% dos proventos para o elo mais forte dessa corrente.

Mas por que sempre mulheres?

As ex-fantasmas contam que os administradores do rachuncho chegaram a desenhar um processo de seleção e recrutamento em escala industrial. Uma delas, Marina, contou à revista que  “recebeu um pedido para arregimentar cinco mulheres que estivessem desempregadas, precisando de dinheiro e dispostas a fazer o mesmo acordo — de preferência, que tivessem filhos pequenos”.

A exigência dos filhos se explica pelo auxílio pré-escolar de R$ 830,00. As demais, adicionalmente, explicam o por quê da preferência por esse tipo de perfil.

Mulheres pobres e endividadas são muito mais susceptíveis ao aliciamento. Mantidas em condições miseráveis (na maioria dos casos, o senador peculatário repassava só R$ 800 por mês para suas aliciadas), elas ficavam completamente à mercê da omertá alcolumbriana.

É de se perguntar se é tolerável  que alguém investido de mandato parlamentar abusar, de forma tão insidiosa e covarde, das múltiplas vulnerabilidades de um grupo social com tamanhas fragilidades. A resposta é ‘não’, obviamente, embora o dimensionamento moral do problema possa parecer secundário diante da gravidade dos crimes cometidos por Davi Alcolumbre.

Para entender como alguém em uma posição tão importante se vale de recursos tão indecentes para roubar dinheiro público é preciso conhecer a origem da fortuna dos Alcolumbre. Uma reportagem da Agência Pública veiculada dois anos atrás mostrou que a poderosa família do senador enriqueceu grilando terras públicas e fazendo todo tipo de negócio escuso em seu estado.

O próprio Davi Alcolumbre tem uma extensa ficha de atos suspeitos com diárias de hotéis e aluguel de carros. Tudo devidamente encoberto pelo enorme poder do ex-presidente do Senado.

Esta não é a primeira vez que o nome do senador aparece envolvido em maracutaias com dinheiro do contribuinte. Mas é a primeira que surgem elementos de que ele tem se valido da fragilidade de mulheres miseráveis para enriquecer.

Agora, além da patente desonestidade, Alcolumbre vai ter que explicar também por que busca suas vítimas apenas entre os mais pobres e vulneráveis.

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